FRAGMENTOS 2.0



[Estes fragmentos consistem numa experiência de reunir uma série de ideias, sem ordem narrativa, num rolo referenciado]


"Este é um livro que, em nenhum momento, minimiza o seu leitor, facilitando-lhe o quer que seja. Este é um livro que convoca cada leitor para dentro de si, que o solta num labirinto sem lhe indicar a real saída, nem sequer se existe mesmo uma saída. O facto de não haver uma ordem única de leitura é um convite ao leitor intrépido para que se arrisque encontrar os seus próprios caminhos nesta obra. Assim como terá de fazer nesse jogo que como indica o título em português, é o mundo, é a vida. Isto tudo porque é a vida que nos é apresentada de um lado e de outro. A vida, para a qual não existe qualquer “tábua de orientação”."
— Jorge Luís Peixoto, prefácio da edição portuguesa da Rayuela de Júlio Cortázar.
"Fragmentei, resumi e amalgamei ideias vindas de minha cultura, isto do discurso dos outros; comentei, não para tornar inteligível, mas para saber o que é inteligível; e para tudo isso apoiei-me continuamento naquilo que se enunciava à minha volta."
— Roland Barthes, frase da contra-capa do livro S/Z das Edições 70.
"Nonlinear writing resurfaced in the literature of the 20th century, when it seemed that the modern experience could not be recorded in the linear way."
— David J. Bolter, in “The New Dialogue” do livro “Writing Space”
A “modernidade líquida” transformou-se numa “contemporaneidade fragmentada”.
FRAGMENTO #05
A primeira grande alteração das noções de tempo e espaço, deu-se em 1905, quando Alberto Einstein publicou a Teoria da Relatividade Restrita onde estabeleceu uma relação subjectiva entre estes dois conceitos, até então independentes Assim, Einstein introduz a quarta dimensão ao definir que um acontecimento varia segundo as três coordenadas espaciais e o instante em que ocorre — o tempo. Esta nova descoberta implica que o observador nunca está num determinado espaço sem estar num determinado tempo e que, também, só a partir de uma perspectiva espacio-temporal, onde se considera um contínuo entre as quatro dimensões, é que se pode construir uma realidade independente do observador.
FRAGMENTO #06
O cubismo surge, no campo das artes, como primeira manifestação das consequência da publicação da Teoria da Relatividade Restrita, em que Picasso, Braque e os seus congéneres procuravam representar as quatro dimensões ao pintarem os vários planos de um objecto de forma fragmentada. A partir desta nova forma de expressão, o observador, parado diante do quadro, tem a percepção total do objecto representado como se estivesse em permanente movimento.
"Hipertext is text displayd on a computer or other electronic device with references (hyperlinks) to other text that the reader can immediately access, usually by a mouse click, keypress sequence or by touching the screen. Apart from running text, hypertext may contain tables, images and other presentational devices. Hypertext is the underlying concept defining the structure of the world wide web. It is an easy-to-use and flexible format to share information over the internet."
— Definição de “Hypertext” na wikipédia.
"Em todas as ficções, sempre que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts’ui Pên, opta — simultaneamente — por todas. Cria, assim, diversos porvires, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam. Daí as contradições do romance. Fang, digamos, tem um segredo, um desconhecido bate a porta à sua porta, Fang resolve matá-lo. Naturalmente, há vários desenlaces possíveis. Fang pode matar o intruso, o intruso pode matar Fang, ambos podem salvar-se, ambos podem morrer, etc. Na obra de Ts’ui Pên, acontecem todos os desenlaces; cada um é o ponto de partida de outras bifurcações. Alguma vez os caminhos desse labirinto hão-de convergir: por exemplo, você chega a esta casa, mas num dos passados possíveis você é meu inimigo, noutra meu amigo."
— Excerto de “O Jardim dos caminhos que bifurcam” de Jorge Luís Borges (1941).
Em 1951, Jack Kerouac escreve, em três semanas, num rolo de 36 metros que apenas foi cortado para entrar na máquina de escrever, a primeira versão de “On the Road”. Escrito num fôlego, este rolo conta, sem censura, uma viagem, uma loucura, um fluxo em devaneio. Keruack apresenta, assim, num tempo em que a literatura era dividida em folhas, capítulos, pontos e vírgulas, uma narrativa corrida sem qualquer tipo de quebra ou ponto referencial.
FRAGMENTO #10
No século XX, foi tão inaugural a narrativa bifurcada como a escrita em rolo. A primeira, bifurcada, introduz a variável tempo à relação do leitor com a narrativa; a segunda aproxima-se dos primeiros escritos corridos sem qualquer tipo de divisão. Torna-se interessante notar que, ambos os tipos de narrativas, necessitam, na realidade, ultrapassar o formato do livro.
"O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas.
A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia.
Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito.
Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais.
A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho.
A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo.
O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista instrumento de arte.
O vício e a virtude são para o artista materiais de arte.
Sob o ponto de vista da forma, o tipo de todas as artes é a arte do músico. Sob o ponto de vista do sentimento, o tipo é a profissão de actor.
Toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo.
Aqueles que descem além da superfície fazem-no por seu próprio risco.
O mesmo sucede àqueles que lêem o símbolo.
É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.
Pode-se perdoar a um homem o fazer uma coisa útil, enquanto ele a não admira. A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda a arte é absolutamente inútil."
— Prefácio de O Retrato de Dorian Gray